Orelhão: aquilo que conectou gerações agora se despede das ruas


Os orelhões desempenharam um papel fundamental na comunicação pública brasileira durante décadas. Em uma época em que poucas residências possuíam telefone fixo, esses aparelhos eram, muitas vezes, a única forma de contato fora de casa. Era comum ver pessoas formando filas para fazer ligações, especialmente entre as décadas de 1970 e o início dos anos 2000. Em diversos bairros, um único orelhão atendia toda a vizinhança e chegava a ser utilizado até para receber chamadas de parentes distantes. Essas filas se justificavam pela alta demanda e pela escassez de linhas telefônicas residenciais, tornando o telefone público essencial para emergências, contatos profissionais ou simples avisos de que “tinha chegado bem”.

Com o avanço da tecnologia e a popularização dos celulares e da internet, os orelhões perderam gradualmente sua utilidade prática. A partir de janeiro de 2026, após o encerramento das concessões da telefonia fixa em 2025, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) autorizou o início do processo definitivo de retirada desses aparelhos das ruas brasileiras, por serem considerados obsoletos diante da conectividade móvel massiva. Ainda assim, alguns orelhões resistem em locais específicos, especialmente onde não há cobertura de telefonia móvel, permanecendo ativos apenas até 2028.

No Rio Grande do Norte, por exemplo, ainda existem 134 telefones públicos em funcionamento, distribuídos em 65 municípios. A maioria das cidades conta com apenas um ou dois aparelhos, enquanto municípios como Baraúna, Caraúbas e Governador Dix-sept Rosado possuem seis cada. Mossoró ainda mantém quatro orelhões ativos. Esses números refletem os últimos vestígios de uma infraestrutura que marcou profundamente o cotidiano da população.

Projetados originalmente por Chu Ming Silveira, os orelhões tornaram-se ícones da paisagem urbana e símbolos de uma era analógica da comunicação. Sua retirada não representa apenas uma mudança técnica ou logística, mas o encerramento definitivo de um ciclo histórico que moldou comportamentos sociais por décadas. À medida que as calçadas se libertam dessas estruturas, a cidade dá lugar a uma nova lógica de conectividade baseada em dados invisíveis, transformando a nostalgia em memória e registrando o adeus a uma relíquia urbana que marcou gerações.

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