O Alerta do então Presidente João Baptista Figueiredo sobre o PT: Profecia ou Retórica do Medo?

Em uma reunião de gabinete no ano de 1980, o então presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo, último general a comandar o Brasil durante o regime militar, teria feito uma declaração contundente ao comentar sobre a legalização do Partido dos Trabalhadores (PT), recém-fundado naquele ano por líderes sindicais, intelectuais e militantes da esquerda, com destaque para Luiz Inácio Lula da Silva.

A frase atribuída a Figueiredo é direta e carregada de preocupação:
"Vocês querem, então vou reconhecer 'esse' sindicato partido (PT). Mas não esqueçam que um dia 'esse' partido chegará ao poder e, lá estando, tudo fará para instituir o comunismo. Nesse dia, vocês vão querer tirá-lo de lá. E para tirá-lo de lá, será à custa de muito sangue brasileiro."

Essa fala, se autêntica, revela o temor de setores do regime militar diante da ascensão de movimentos populares organizados fora do controle do Estado. O PT surgiu num momento de efervescência política, marcado pela abertura gradual do regime autoritário e pela reorganização da sociedade civil, sobretudo do movimento sindical. Sua fundação simbolizava o nascimento de uma nova força política que se contrapunha tanto à direita militar quanto às correntes mais tradicionais da esquerda brasileira.

Figueiredo, um militar de linha dura, via no PT uma ameaça potencial à ordem estabelecida. Sua referência ao "comunismo" não era apenas ideológica, mas estratégica: evocava o fantasma da Guerra Fria, do perigo vermelho, uma narrativa usada frequentemente para justificar a repressão. A previsão de que a permanência do PT no poder resultaria em uma tentativa de implantação do comunismo reflete mais os temores da elite militar do que uma análise objetiva dos rumos que o partido tomaria nas décadas seguintes.

Curiosamente, o PT chegaria ao poder em 2003, com a eleição de Lula à Presidência da República. Durante seus governos e os de sua sucessora, Dilma Rousseff, o partido promoveu políticas sociais amplas, ampliou o acesso ao ensino superior e buscou uma maior inclusão das camadas populares na economia formal. Contudo, longe de implantar o comunismo, os governos petistas mantiveram a economia sob uma lógica capitalista, com alianças amplas e governabilidade centrada em acordos com o Congresso e o setor privado.

Por outro lado, o alerta sobre a dificuldade de "retirar o partido do poder" ganhou novo sentido no cenário político das crises dos anos 2010, especialmente com os protestos de 2013, a polarização crescente e o processo de impeachment de Dilma Rousseff em 2016, seguido da prisão de Lula em 2018 e sua posterior absolvição.

A fala de Figueiredo, portanto, pode ser lida de duas formas: como um reflexo genuíno dos temores de um regime que via seu controle ruir diante de novas forças sociais emergentes; ou como uma retórica do medo, típica de contextos autoritários, que tenta demonizar o adversário antes mesmo que ele possa disputar legitimamente o poder.

A história mostrou que o PT não instituiu o comunismo, mas também revelou os desafios que surgem quando um partido de origem popular alcança o poder num país com profundas desigualdades e uma elite política conservadora. O "sangue brasileiro", felizmente, não foi derramado em um conflito armado, mas a democracia foi colocada à prova — como continua sendo, até hoje.

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